Um dos maiores ícones do humor brasileiro, Ronald Golias faleceu aos 76 anos, há exatos 21 anos, em 27 de setembro de 2005, e em decorrência de infecção generalizada por conta de uma infecção pulmonar. Criador de personagens como o malandro Bronco, o mal-aplicado Pacífico, e o sonolento professor Bartolomeu Guimarães, o paulista de São Carlos passou por várias emissoras de TV ao longo dos mais de 50 anos de carreira: Record, Globo, Band e SBT.
Dono de bordões como "ô, Cride, fala para mãe", o humorista estrelou "Família Trapo", na década de 1960 ao lado de Jô Soares (1938-2022), "Meu Cunhado", com Moacyr Franco nos anos 2000, "Escolinha do Golias", "SuperBronco" e "Bronco", neste contracenando com Nair Bello (1931-2007) no fim de 1980. Só para citar alguns trabalhos. Fora a presença no cinema.
Considerado por Carlos Alberto de Nóbrega como um irmão, Golias certa vez foi direto ao se definir: "Sou um sujeito esquisito". Pudera, o intérprete do Profeta de "A Praça é Nossa" gostava de recolher lixo pelas ruas, por isso quando saia de casa levava consigo um saco plástico. Contudo o aspecto limpo de um carro não lhe agradava nem um pouco.
"Cato o lixo que vou encontrando (dava proriedade às garrafas e latinhas). Também vistorio bueiros. Odeio vê-los sujos", admitiu à "Folha de S.Paulo" de 2 de abril de 1995, época em que era responsável por picos de audiência daquele programa humorístico, então transmitido nas noites de sábado - hoje, ocupa o horário noturno das quintas-feiras, como era na estreia, em maio de 1987.
Já relação à limpeza dos carros acrescentou: "A pintura brilhando me incomoda. Adoro aquela cera que lambuza a lataria quando o carro sai da fábrica. Nunca deixo tirá-la. Aliás, nunca lavo o carro. Gosto que acumule poeira, que fique bem fosco". Mas se você pensa que acabou por aí, engana-se.
Golias tinha outras manias bem curiosas, de fazer inveja a Cristiano Ronaldo, craque do futebol português: uma delas era usar apenas sapatos pretos, de bico fino e com vários preguinhos batidos em sua sola. "É para ouvir o som dos meus pés pisando o chão - toc, toc, toc. Sapato precisa fazer barulho", justificou o intérprete de Isolda, sua única personagem mulher.
Em relação às camisas tinham que ser muito largas, tamanho GG. O oposto da roupa íntima. "Já cueca, quanto mais apertada, melhor. Dizem que machuca, que pode atrofiar o pingolim (sic). Sei lá. Por via das dúvidas, tem dias que dou um descanso para o coitado e não uso nada embaixo das calças", disparou.
A reportagem contou ainda que Golias abria mão de cortinas, box no banheiro e quadros. E não gostava do encanamento no interior das paredes ("gostaria que fossem à mostra. Escondidos, me dão a impressão de que estão conspirando, inventando problemas para me prejudicar"). Ao mesmo tempo, a fiação tanto exposta quanto àquela que não era visível lhe incomodava do mesmo jeito.
"Ainda não descobri como resolver o dilema dos fios na minha cabeça", resumiu ele, que tinha mania até na hora de conversar. Sempre ficava à esquerda da outra pessoa. Se a conversa envolvia ele e mais dois, ficava no meio. Quando o número era de três para cima, pelo menos um tinha que ficar à direita dele, Golias.